Vamos cá combinar uma coisa... para a malta que gosta de ler assim como eu (ou não, pk pode acontecer) vou deixar aqui umas coisinhas bonitas da minha autoria para me darem opiniões sobre o meu trabalho... Mas quero mesmo opiniões, hã? Tive esta ideia durante as férias de Verão passadas com a minha mana em Coimbra, Arganil e Castelo Melhor. Ela é a minha fonte de ideias, por isso... Obrigado por tudo maninha. Este post é dedicado exclusivamente a ti, tal como a própria categoria. Bjinhu*
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prólogo missionário
Há cinco eras atrás, meio mundo subjugou-se à vida sem magia. A monarquia regia-se tomando de reféns os possuidores dos poderes mais sábios e maiores do mundo antigo, pois eram estes levados em conta como uma ameaça à regência de cada reino. Numa tentativa de escapar às atrocidades mortíferas a que os magos eram sujeitos, 14 cavaleiros sagrados, Galleigher, Morgana, Fellowship, Limo, Sunniro, Mysticus, Lynnel, Sybill, Sallýo, Junos, Jadira, Lazáruh e Savano, esconderam em pontos diversos dos reinos que cada um protegia, os 14 mantos sagrados que lhes concediam a força para tornar prósperos os diversos mundos.
Durante duas décadas, as 14 regências universais viveram em paz.
Foi durante o massacre de Xallanan que Wilbur, regente do reino de Withilbur, um dos descendentes de Lazarúh, e secretamente usado de magia negra, se apoderou dos mantos e os usou para se tornar dono e senhor do mundo mágico e apoderar-se das vivências humanas dos seres não-mágicos, tornando a Terra um planeta uno em costumes e leis.
Mas Lorthos, irmão de meio-sangue de Wilbur e nascido do traço negro de Lazarúh, tomou posse do reino deste à devida força, quando na noite de transferência entre a quarta e quinta décadas, tornando hoje o mundo no que ele é, e como o vemos. Matou Wilbur e enegreceu a metade da Terra que faltava, jurando vingança e massacre na outra parte que lhe faltava tomar.
capítulo primeiro
"poderes dos sonhos"
O céu estava ainda negro e o horizonte começava a tornar-se inundado por faíscas vermelhas-fogo. Mais de metade do reino de Withilbur ainda se encontrava na penumbra e ensonado dentro das suas casas, pouco se contorcendo no seu cantinho. A noite deixara-os há bem pouco tempo e o cansaço de cada dia de trabalho era atroz, quando se era camponês.
Shana virou-se na cama pela oitava vez, sem se conseguir libertar daquele sonho meio estúpido que não a largava há mais de duas semanas. Que raio de graça tinha sonhar com meia dúzia de corpos mortos a caírem-lhe sobre o telhado da casa? Nenhuma. Ela só sabia uma coisa: que estava bastante preocupada desde a última carta dos irmãos.
William, Charely, Flaminian, Georgio e Ronan tinham partido para a guerra há quase um ano e há mais de seis meses que não lhes chegavam quaisquer notícias sobre eles. O pior era que tudo isto não a afectava só a ela lá em casa. Também a mãe andava extremamente esquisita, e o pai raramente falava do que fosse enquanto estava em casa. Percival, outro dos seus irmãos, esse ao contrário andava de lá para cá, cumprindo os seus deveres de mensageiro de um governante que nem o cognome disso merecia. Mesmo assim, andava todo contente com este cargo e ai de quem levantasse um insulto contra o seu senhor. Mas também ele, naquele momento estava longe, talvez no encalço dos restantes irmãos, ou mesmo ao pé deles.
A rapariga levantou-se da cama e vestiu o primeiro roupão que lhe veio às mãos quando abriu o guarda-fatos. Os olhos verdes passaram-se pelo espelho e a sua figura ruiva e meio sardenta saltou-lhe à vista. Tentou sorrir. Não conseguia. As saudades dos irmãos e de ter com quem conversar não deixavam que tal acontecesse. Suspirou e, enquanto amarrava os cabelos num simples rabo-de-cavalo, saiu pela porta, esperando encontrar na mesa um pequeno-almoço mais animado que qualquer das refeições dos dias anteriores.
Era o terceiro pesadelo naquela noite.
Tygath voltou a dar uma volta enorme e brusca na cama quase batendo com a cabeça na ripa de madeira ao seu lado. Quase tinha medo até de respirar, por isso, nem sequer se mexeu mais.
Abriu os olhos. O tecto estava escuro e inundado pelo negro do quarto, e pelas sombras. O preferível era nunca mais voltar a adormecer mas, mesmo tentando, não conseguia. E isso dava com ele em louco. Tal como os pesadelos que tinha todas as noites.
Setas para um lado, balas para o outro, sangue, feridos, corpos desmembrados, cabeças abertas ao meio, miolos espalhados... Era tanto disparate junto que nem ele conseguia enumerar.
Sentia a respiração ofegante e quase escassa, cansada. Tentava normalizar o ar dos pulmões e o bater do coração mas não lhe era permitido. Estaria a ficar louco ou quê?
Olhou para a cama ao lado da sua. Um facto normal, Krill, o seu irmão, ressonava mais alto que os seus gritos e gemidos durante todo o pesadelo, tanto que nem sequer acordara. Nem devia ter dado sequer por isso... Como todas as noites. Pelo menos não tinha de lhe explicar pormenores, o que até era agradável e não deixava de ser relaxante e extremamente aliviante.
Sentou-se, encostando a cabeça ao frio da parede branca escurecida pelo negro da noite atrás de si. Fechou os olhos. A imagem do sangue líquido e abundante assaltava-o a cada pestanejar. A cada suster de respiração. A cada suspiro mais longo. Ao lado dele, Krill continuava perdido num sono profundo e nem se apercebia do seu acordar.
Ergueu-se da cama e calçou os chinelos à pressa, descendo para a sala. Wyrone andava pela divisão miando baixinho, e veio roçar-se nas suas pernas quando o sentiu a poucos metros, a ronronar. Tygath passou-lhe a mão esquerda pelo dorso alaranjado suavemente, e passou pelo gato, que o seguiu elegantemente, em direcção ao móvel da entrada. Pegou no telefone e sentou-se no sofá, marcando o primeiro número que lhe veio à cabeça. Precisava de falar do que vira. Conhecia alguém que iria compreender.
Chamou uma... Duas, três vezes. Não respondiam do outro lado. Também àquela hora... Que horas seriam, aliás? Olhou para o relógio de cuco da sala. Quase sete da manhã. Certamente, ela ainda dormia. Respirou fundo e desligou, deixando os olhos cairem à sua volta, quando se encostou para trás no sofá. Haveria uma melhor oportunidade para falarem, nesse dia, na escola...
O autocarro de Kings-Alley Road parou defronte a Merttheen quando a primeira campainha de entrada nas aulas soou por toda a escola. Três dezenas de alunos irromperam pelas portas amarelas e entraram quase a correr portão adentro. As paredes inundadas de cacifos saltavam à vista de toda a gente que chegava e os corredores vazavam quando os professores encaminhavam os seus discípulos para as salas de aula.
Aquela manhã mostrava-se, para variar, solarenta. Sim, para variar, pois havia dias que as chuvadas eram constantes ali, em Kings-Alley. Os temporais eram negros e havia perigos de actividade vulcânica e erupções violentas quando o Garllönner se mostrava activo. Nessas alturas, chegava-se quase ao ponto de evacuar tudo, se necessário. Proteger a própria vida tornava-se prioridade absoluta para todos os cidadãos. Mas, de contrário ao que era costume, o ambiente mudara por aquelas paragens. Ultimamente, os dias eram quentes e bastante secos. Para os habitantes, era um achado extremamente agradável. O clima alterava-se dia-a-dia.
A aula de Mr. Targgey (a mais aborrecida do dia para todos os alunos da escola), fazia parte do primeiro espaço do horário tardio de Tygath Lynch naquele dia de Segunda-feira. A uma hora daquelas da manhã, as suas referências aborrecidas aos estudos da Segunda Guerra Mundial não eram de grande ajuda. A turma parecia ter ouvido o suficiente para muitos deitarem a cabeça nos braços e acharem a matéria extremamente interessante a outra qualquer hora do dia, ou mesmo dada por outro qualquer leccionante.
Tygath estava quase a iniciar um sistema de ressonância que se tornaria perigosa, se eventualmente, Mr. Targgey o ouvisse devido a todo o silêncio da sala inteira, quando recebeu uma cotovelada do lado direito. Levantou a cabeça e encontrou o olhar reprovador da sua melhor amiga, Haidia, que escrevia apressadamente umas quantas linhas no seu caderno de capa cor-de-xisto e lho passava disfarçadamente. Leu-as rápido.
"O que me querias, hoje de manhã?"
Tygath arqueou as sobrancelhas os segundos seguintes, antes de perceber finalmente onde a amiga queria chegar. Caramba, ela tinha de lhe dar o desconto, ele estava quase a dormir, era normal que os miolos demorassem um pouco a arrancar... Pegou no lápis e escrevinhou na linha abaixo umas palavras, antes de lhe devolver o caderno. Haidia leu-as e acenou, num misto de compreensão. Voltou a olhar na direcção do velho leccionante.
- Como eu vos disse, Libbato e Nennion foram os autênticos criadores da Sílice Rebelde, que invadiu Kronnag e derrotou Yellonne. - Mr. Targgey vislumbrou o seu livro velho que lhe cobria as enrugadas mãos e olhou em volta para toda a sonolenta turma. Dirigiu-se ao quadro e parou por um pouco.
Pegou no giz e virou-se de repente, atirando-o pelo ar. Um rapaz moreno sentado lá atrás acordou em sobressalto quando este lhe bateu em cheio na testa.
- Hã? Quem é??
Os poucos alunos que se mantinham acordados riram-se. Haidia revirou os olhos de impaciência e trocou um olhar com Tygath quando se voltou de novo para a frente. Este, ao contrário, manteve-se virado para o outro rapaz, assim como outros elementos da turma.
- Mr. Savrinn, o que me tem a dizer acerca da Sílice Aliança?
O inquirido olhou para o professor, atónito com a pergunta. Meia dúzia de braços ergueram-se no ar, quando ele abanou a cabeça.
- Maior parte desta turma ganharia muito mais, se em vez de dormir, estudasse. - Olhou em volta. - Miss Burrows, diga, por favor.
Tygath olhou para a amiga sentada a seu lado, quando ela baixou a mão e respirou fundo, preparando-se para um longo discurso.
- A Sílice Aliança foi formada por Relleyer, Parttön, Holdieff e Vasllon, liderada pelo General Fresto, descendente de um antigo líder proveniente de uma pequena cidade de Gytternino, cuja Kings-Alley Road é uma das cidades-estado. Por isso é tão importante o conhecimento desta guerra para a nossa cidade.
- Exacto. - Mr. Targgey anuiu, presenteando Haidia com um sorriso que esta, largamente, retribuiu. - Agora, por favor, passem o que vou escrever no quadro. E, desta vez... - O seu olhar caiu sob o rapaz, Savrinn, sentado lá ao fundo. - Peço-vos que não adormeçam, ou terei de vos recomendar um trabalho de casa a dobrar para a aula de amanhã de manhã.
- "E, desta vez... Recomendo-vos que não adormeçam, ou terei de vos exigir um trabalho de casa a dobrar para a aula de amanhã de manhã..." Bah!
A voz esganiçada de Lucas Savrinn ecoava pelos corredores, enquanto ele e Tygath passeavam pela escola, no intervalo, à saída da pachorrenta primeira aula.
- A culpa foi tua! - atirou Haidia, fechando o cacifo e seguindo-os, quando os rapazes a apanharam à esquina.
- Minha?? - Lucas fez-se ofendido. - Talvez se ele não fosse uma seca, a malta adormecesse menos. - Haidia revirou os olhos e avançou, em pose de líder, passando-lhes à frente, enquanto Tygath olhava de um para o outro.
« Além disso, não fui o único a passar pelas brasas.
- Tu és o representante de turma, Lucas! - exclamou Haidia em tom de culpabilização. - Tens obrigatoriamente de dar um bom exemplo.
- Por um simples erro técnico. - desculpou-se ele. - Se o estupor do Negnon não tivesse entrado para a turma no dia da eleição e tu não tivesses feito com que ele fosse suspenso no ano passado...
- Queres dizer que a culpa foi minha? - gracejou Haidia, com um ar sorumbático.
- Não. Só quero dizer que o golpe dele foi para se vingar de ti, quando votou em mim para desempatar. Ou seja, eu fui a vítima da zanga de ambos. - Olhou para Tygath em busca de apoio. - Não sei o que deu na cabeça de Mrs. Ravorei para lhe dar oportunidade de voto, ainda mais de desempate.
- Nem eu sei. Mas está feito, não está? - disse a amiga, a voz parecendo mais calma.
- Tréguas? - Lucas estendeu a mão na direcção dela e Haidia anuiu, sem lha apertar, virando-lhe as costas. - Ei!
Tygath riu-se quando Lucas desatou a correr atrás dela. Seguiu-os. O amigo foi apanhá-la à entrada da biblioteca, encurralando-a, encostada à parede. Haidia ria-se sem parar enquanto Lucas lhe fazia cócegas, largou os livros e os cadernos que se espalharam no meio do chão e, todos os três, pareciam pouco se importar com as pessoas que passavam por eles e pelos olhares que lhes lançavam, deviam achá-los loucos.
- Pára! - gritava Haidia entre as gargalhadas, numa voz que pouco ou nada se compreendia.
- É o quê? - perguntava Lucas, sem parar de a atacar, encostando-a cada vez mais à parede, entre as gargalhadas dela, e de Tygath a assistir ao espectáculo. - Não te percebi, abre a boca a falar, não comas as palavras.
- Lar... ga-me... - pediu ela de novo, deslizando pela parede abaixo, numa tentativa de escapar à investida do amigo, encolhendo-se toda. - Não... va... le... Pára...
- Quero uma garantia de aceitação de desculpas, ou não há paragens para ninguém! - exclamou o rapaz, levantando-a pelos pulsos e voltando a presenteá-la de cócegas.
- Ok... O... k... - Haidia inclinou-se e deu-lhe um beijo rápido na bochecha. Lucas sorriu-lhe.
- Muito melhor. - disse, baixinho. Tygath tossiu um pouco, atrás deles. Os dois pareceram tomar consciência da presença do amigo, uma vez que se afastaram de repente e Lucas quase tropeçou nos cadernos de Haidia, ainda espalhados no meio do chão.
- Aa... Eu ajudo-te. - disse ele, baixando-se e pegando em três dos livros dela. Haidia apanhou os restantes e trocou um olhar com Lucas, antes de entrar biblioteca adentro.
Ele sorriu timidamente. Tygath sorria, olhando da amiga que se sentava ao fundo da divisão numa das mesas, para o amigo ao seu lado. Tanto um como outro estavam ligeiramente corados. Tossiu de novo, fazendo Lucas olhar para ele e tirar o sorriso do rosto.
- Vá, o que foi?
Tygath abanou a cabeça negativamente.
- Nada.
E seguiu Haidia ao entrar na biblioteca.
capítulo segundo
"a última legião"
Anoitecera há relativamente pouco tempo.
As tendas vermelhas dispostas em ordem de eixos quadrados, davam ao acampamento uma organização monumental. Eram três as fogueiras que iluminavam o centro do enorme e ordenado espaço, perto das quais os soldados se juntavam para saborear uma simples refeição. O silêncio era constante, tal era o medo de um novo ataque semelhante ao de há dois dias.
O céu era fogo, quando os Zinuls deixaram o anterior acampamento destruído, nos arredores de Valitud. Mais de um milhar de defensores da legião imperial haviam morrido, empilhados como carcaças no meio do terreno. O massacre havia sido sangrento. No horizonte, ainda se via o fumo da direcção onde a antiga paragem da legião se situara.
Os feridos também não eram poucos. Muitos dos homens, trespaçados por setas, haviam sobrevivido após o último esgar do inimigo. Haviam combatido como bravos e bem treinados guerreiros, embora maior parte deles tivesse tido ali a sua primeira batalha. A astúcia era o que os movia e os salvava. E isso não era coisa que se treinasse. Nascia com um guerreiro, pura e simplesmente.
O cansaço já tomara alguns deles, e os que haviam ficado conscientes, só rezavam para que, durante a noite o simples fechar dos olhos não se prolongasse para sempre. Mas, pelo menos, morreriam em paz.
Os quatro soldados que rodeavam a fogueira maior deixaram-se ficar até após o fim do pôr-do-sol. Os cabelos de todos eram semelhantes e os olhos traçavam-se familiarmente firmes nos rostos de cada um. Dois deles permaneciam imóveis, sentados à luz e ao quente daquela chama enorme. Olhavam na direcção dos próprios pés, movendo apenas o diafragma quando uma respiração mais forte ou mais sentida se esforçava por surgir nos pulmões, inalando o fumo da fogueira à sua frente. Os seus movimentos eram semelhantes tal como as suas caras iguais. O outro olhava também na direcção do chão, mas empunhava-se de uma garrafa de vidro, por onde o sabor do álcool lhe saía para a boca quando o levava às guelas. O último, sentado no chão, limpava do cabo de uma espada aquilo que deviam ser vestígios de sangue seco, não fosse o aspecto negro que a escuridão lhes dava. Nenhum deles falava, sendo o único som ali presente o crepitar das chamas.
- O Bill adormeceu. - disse uma voz calma saindo de uma das tendas, quando um outro homem pouco mais velho que os dois gémeos imóveis se aproximou deles, devagar.
- Como está ele? - perguntou o dono da garrafa de álcool, parando de beber e pondo-a no chão à sua frente, sentindo-a aquecer com o calor do fogo.
- O braço ficou imobilizado, e ele delirou um pouco, mas parece que vai ficar bem. - O outro sentou-se ao lado dele. - Precisa de uns dias de repouso e estará pronto para outra semelhante a esta.
- Não o repitas nem a brincar, Perce... - pediu um dos dois gémeos, mexendo-se agora totalmente. Levantou-se.
- Peço desculpa.
Fez-se silêncio. Voltaram todos a olhar para as chamas, excepto o rapaz que continuava a limpar a sua espada.
- Não imagino o que diríamos aos pais caso lhe acontecesse alguma coisa... - desabafou Percival, olhando para a fogueira fixamente. - E mesmo à Shana, ela adora-o... Importas-te muito de parares com esse estúpido tique, Ronan?
Ronan parou de passar o pano pela espada e olhou para eles, com um ar desagradado.
« Não te incomoda nem um pouco que o Bill esteja deitado naquela cama horrível quase em risco de morrer, não sem antes sofrer o tormento fugaz de ficar sem um braço?
O rapaz olhou para o chão, voltando à sua espada. O pano já imundo voltou a correr pela lâmina desta.
- Mete-me espécime como possas ser tão insensível, Ronan! - atirou o gémeo que continuava sentado a poucos centímetros dele.
- Pois, afinal... Foi por tua culpa que ele ficou naquele lindo estado. - apoiou aquele que estava levantado.
Ronan largou a espada e levantou-se, dirigindo-se a este para o atacar quando o homem que largara a garrafa há poucos minutos se levantou também, travando-o quando o agarrou pela capa. O líquido álcoolico espalhou-se pelas ervas lentamente quando o recipiente caiu ao chão, pelo erguer brusco do dono.
- Calma, ok? Ronan! - disse, esforçando-se por impedir que este saltasse para cima do outro. Virou a cara dele na direcção da sua. - Não ganhamos nada em discutir.
Olhou para os outros.
« O nosso irmão está ferido. Gravemente ferido. O que podemos fazer é unirmos as nossas forças e rezar para que ele se recupere depressa. Se começamos a brigar, não o ajudaremos em nada. Muito pelo contrário.
- Ele estaria bem, Charely, se esse idiota aí não o tivesse...
- Cala-te, Flame! - gritou ele, enquanto Ronan virava a cara para o lado tentando que a escuridão da noite lhe ocultasse as lágrimas que teimavam em querer cair. Mas não ia chorar. Bill ensinara-lhe que um verdadeiro guerreiro nunca chorava. Fosse em que circuntância fosse, nunca se mostrava fraco. Nunca.
- Se ele morrer, eu juro por tudo que nunca mais... Eu nunca mais... - gaguejou Flaminian, enquanto o gémeo o agarrava.
- Ele não vai morrer! - gritou Ronan, falando pela primeira vez desde que vira o irmão mais velho cair em batalha de há dois dias, à sua frente.
- Espero muito bem que sim. - gritou Flaminian por cima dele. - Ou nunca mais a nossa família te perdoará, Ronan!
E virou-lhes as costas. Charely virou-se para o outro irmão.
- Georgio, vai atrás daquele idiota e impede-o de fazer algo estúpido parecido com ele. - O irmão assentiu e seguiu Flaminian. Percival virou-se para os outros dois.
- É bom mesmo que ele não morra, Charely! - E seguiu o mesmo caminho dos outros.
Ronan virou-se para o chão, sem encarar o irmão mais velho.
- Já podes largar-me.
Charely libertou o braço dele e observou-o, enquanto se dirigia à sua velha espada caída junto da pedra onde estivera sentado a limpá-la, apanhando-a. Uma pergunta que já lhe fazia parte do íntimo há dias, desde que haviam encontrado Bill estendido no chão e Ronan paralisado junto dele, veio-lhe à boca.
- O que aconteceu realmente durante a batalha?
Ronan parou, estático. As lembranças daquele momento, quaisquer que estas fossem, deviam estar a passar-lhe pela cabeça de modo estrondoso. Olhou para o irmão.
- Não sei.
- Como não sabes? - insistiu Charely.
- Não sei. - repetiu Ronan, voltando a recuperar os movimentos. Passou pelo irmão, em direcção às tendas. Charely voltou-se, seguindo-o com o olhar.
- Até agora eu tomei partido de ti. - Estas palavras fizeram Ronan estancar de novo. - Mas não poderei continuar a fazê-lo, se não souber o que aconteceu realmente. Porque razão o Flame te acusa mortalmente pelo que se sucedeu com o William, Ronan?
- Nunca te pedi que acreditasses em mim. - disse ele, sem se voltar. - Podes ficar do lado de quem quiseres, Charely!
Retomou o seu caminho.
- O Bill julgou-te sempre digno do seu apelido, Ronan! Sempre teve confiança que não o desapontarias, e nem à memória dos nossos antepassados. - disse Charely. O irmão respirou fundo antes de sair da sua vista.
- A cobardia e o medo não tornam ninguém digno de nada. - E desapareceu por entre as tendas sem dizer mais nada.
O branco dos lençóis que cobriam as janelas da tenda, mesmo com a sua cor clara, estava escuro com o tom da noite. O ar frio entrava por ali sacudindo os panos que a cobriam, ouvia-se o barulho do vento a uivar à medida que passava. Era aquela a maior área coberta de todo o acampamento, talvez devido ao número acrescido de feridos que tinham surgido na última batalha que a legião havia travado. Os corpos estendidos nas dezenas de camas ali dispostas em fileiras, dormiam profundamente. O cheiro de plantas e álcool era nauseabundo e pouco ajudava à respiração de qualquer pessoa mais saudável que entrasse ali dentro.
Ronan abriu as cortinas e olhou em volta, fechando-as de imediato para impedir o ar de entrar atrás de si. Olhou em volta, procurando o vulto que lhe parecesse mais familiar. Precisava dele, mesmo que se encontrasse inconsciente, que não pudesse ouvi-lo e nem vê-lo, nem mesmo confortá-lo. Precisava de respostas vindas da única pessoa que sempre o havia compreendido desde pequeno, e ao seu desejo de se tornar um guerreiro. A única pessoa que o encorajara a seguir aquele estúpido sonho que roubara a vida do seu melhor amigo e quase roubara também a sua. Naquele momento, ficar sem essa pessoa era o seu maior medo. Mas já tinham havido outros. E esses outros receios haviam causado tudo aquilo.
"A noite cairia dentro de quatro horas. Em breve anoiteceria.
Ronan mantinha-se cuidadoso e sempre alerta, empunhando o escudo com o brasão de Withilbur com um ar altivo, à entrada da tenda do governador. Esperava pacientemente algo. Nem ele mesmo sabia o quê, mas o irmão mais velho havia-lhe pedido que esperasse. O seu maior herói havia-lhe pedido que esperasse. Estava ciente em mostrar-lhe que era útil e não estaria ali para sair derrotado. Que William Wild, um dos maiores guerreiros daquela legião imperial, não apostara nele em vão.
Decorreu mais meia-hora até as vozes lá dentro cessarem e começarem a sair os homens que tinham enchido a tenda quando aquela reunião começara há quase seis horas. Ronan viu sair toda a gente e suspirou.
- Tem paciência. - Sentiu-se a si próprio sorrir, antes de se voltar para o autor daquela voz. - A tua hora de estar ali dentro connosco há-de chegar.
- Bem tarde, pelos vistos! - Bill sorriu, quando viu o irmão baixar a cabeça esboçando uma cara de desilusão.
- Não digas isso, estará bem mais próximo do que julgas. - Ronan olhou para ele. - És um guerreiro fantástico, apenas te falta algum treino. Não queremos que caias logo no teu primeiro combate, R!
- Tu não queres. - disse Ronan, em resposta. - O Flame e o Georgio estão desertos disso, só para provarem que não tenho fibra suficiente para isto. E têem razão, se calhar.
Bill fulminou-o com os olhos.
- Um verdadeiro guerreiro nunca se rebaixa. - cingiu. - E tu tens a alma e o coração de um verdadeiro guerreiro.
- Mas não tenho a força de um.
- As únicas forças necessárias estão aqui - A mão direita de Bill passou da testa para o peito. - e aqui. E essas, tu tem-las em grande magnitude.
Ronan sorriu e desceu o olhar para o chão.
« A coragem surge quando precisamos mesmo dela. O coração de um guerreiro só se mostra na altura devida. O teu há-de revelar-se a ti quando o momento oportuno chegar. Tal como a tua fibra, como os gémeos alegam.
- Porque acreditas em mim? - Foi a única coisa que se lembrou de perguntar. Bill sorriu antes de o verde dos olhos de ambos se fundir no mesmo olhar.
- Porque serás de todos aquele que mais me dará motivos de orgulho."
Motivos de orgulho... E orgulhar-se-ia dele porquê? Por estar à morte, enquanto ele, Ronan, continuava sem um arranhão, salvo do perigo de morte e sofrimento como aqueles que ele estava a passar em seu lugar?
Era tudo por sua culpa. O irmão ia morrer, ele sabia disso, mas recusava-se a acreditar me tal coisa. E ele seria para sempre um renegado pela família, como sempre temera ser. Flame tinha razão. Nunca ninguém o perdoaria. Ele tinha medo de não conseguir, mas arriscara embarcar naquela aventura estúpida que só trouxera problemas. Bill tinha-o apoiado verdadeiramente e ele tinha sugado esse apoio até às entranhas, de tal modo que agora, via o irmão perder as forças e a vida, ali, mesmo à sua frente.
Se Bill morresse, para além de renegado, nunca se perdoaria a si próprio. Amaldiçoaria a sua maldita existência.
Caiu como uma criança em cima do colo do tronco do corpo adormecido do irmão mais velho e chorou. Durante minutos, horas esquecidas. A cabeça e o peito doiam-lhe tanto como se tivesse levado com uma lança do meio destes, de um lado ao outro. Soluçava tanto que sentia a mão de Bill tremer enquanto a apertava. Ele também tremia. Sentia os lençóis que cobriam o irmão até ao pescoço molhados pelas suas lágrimas.
Os olhos de Bill continuavam fechados e ele, imóvel, tal como saíra do campo de batalha. Ronan deitou a cabeça de novo em cima do tronco do irmão, sem parar de chorar, acabando por adormecer quando o dia começou a raiar lá fora.
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Aah ah... Pois é, queriam mais não era? Pois, tb eu... Mas ainda tenho de escrever primeiro. Agradeço os comentários, tanto virtuais por aki, como pessoais, directamente à minha pessoa... Quando tiver mais ideias aviso que postei, valeu?
Jokas pa todos...